29 June 2009

A companhia - Conto


A tristeza agora é parada. Muda surda e cega. Insossa, diria quase indolor.

Não tem choro, só vela. Tem o frio do inverno, meus pés congelando, meu nariz constipado, a energia faltando, as vozes acendendo na escuridão, lá fora na rua.

Fujo da presença dos meus parentes e todo assunto tolo que possa surgir. Todo inverno é assim. Invadem meu muro com uma pergunta qualquer pela pura curiosidade de saberem o que alguém como eu faz no escuro do quarto sozinha, numa situação dessas. Respondo rápida e bruscamente como quem diz: “fora daqui”!

Sinto-me estranhamente aconchegada diante disso tudo, embora sempre venham em mente lembranças de coisas medonhas, mas que pouco fazer diferença agora.

As velas já estão no fim.

Se há algo que me assusta é a porta do quarto, encostada, semi-aberta, se movendo com o vento que não sei de onde vem, parece respirar. Lembro-me que há alguns anos o momento de empurrá-la e entrar no quarto era crucial, a parte mais devastadora do dia, insistia em evitar às vezes, mas era inútil. Essa época sim faz tremer meus ossos.

Quando retorno a essas lembranças é como se revivê-las me sugasse a energia vital quase inteira, numa luta dolorosa e exaustiva.

E meu conforto desde que tudo sossegou nesse e no outro plano (ao menos pra mim) é um banho longo de banheira à luz de velas com lamentos da Anna no rádio, tragadas infinitas no meu cigarro, um qualquer vinho barato, me embriagando com a fumaça.

Ficaria imaginando uma cena dessas de filme que nunca acontece com ninguém.

Ah! Que senhora jovem me tornei, sempre me queixando da solidão, mas sim, à escolhi.

Simplesmente por ser a melhor companhia. Fria sim, porém maternal, dona de um abraço constante, intacto, sobrevivente a tudo e todos. Aos mais altos picos de alegria instantânea, vencedora diante das paixões arrebatadoras, presente diante das melhores amizades inconstantes de hoje em dia, enfim...

Ali sempre, me acompanhou pacientemente, assistindo dissimulada e convencida que só seu colo foste capaz de suportar o peso dos meus lamentos.

Somente seus taciturnos ouvidos me ouviriam bem antes e depois de cada soluço.

Apenas tuas mãos seriam leves e espinhosas o suficiente para me afagar como deve ser.

Só sua pele de ar abaunilhada me aqueceria nessas noites de agonia e refúgios. Pois nada eu seria, se não guiada pelo tino da solitude. Que soe romântico e ridículo, mas a beleza de tudo que não é forçado pelo amor vem dela.

Quem sente reconhece que assim como tudo, metade é dádiva, metade é maldição e isso move os homens para todos os caminhos.


(BlueAcid)

1 comment:

Anonymous said...

nao ha mais zero comentarios... uma alma como a sua leu.

e gostou, e se identifica.

... enfim...